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Você é seu próprio fracasso

Andar de ônibus é uma coisa fenomenal. Não estou falando que o sistema de transporte público no nosso país é sensacional e sem defeitos, que os ônibus são confortáveis ou que você sempre vai sentado até a sua casa (sem contar na insegurança), mas que você pode fazer desse momento um momento muito positivo para você. Tudo depende de como você encara essa experiência E, no ônibus, eu cheguei a essa conclusão.

Não gosto de culpar ninguém individualmente por problemas sistemáticos, por isso eu vou falar sobre mim, dando exemplos de experiências e frustrações minhas (e talvez invente algumas também).

Cheguei a uma fase da minha vida onde o sentimento de estar atolado em um lamaçal é constante e, algumas vezes, sufocante. A vida não evolui e nem vai pra frente, ela só vai pra baixo. Talvez você já tenha se sentido assim ou esteja se sentindo assim neste momento, mas vou te falar uma coisa: está tudo bem. Você não é o único e eu não sou o único, é a piscina do vizinho que sempre parece mais limpinha mesmo. Todo dia a agência de cartão de crédito me liga e o sentimento é que eu nunca vou conseguir derreter essa bola de neve de problemas e desesperos com as minhas próprias lágrimas. Mas, por quê eu?

Existem vários problemas e preconceitos enraizados em vários âmbitos sociais e políticos que interferem no nosso sucesso (oi, capitalismo!), mas se algumas pessoas conseguem por que não eu? A questão que entendi (no ônibus) é: porque eu sou eu. Fiz uma pequena lista mental de projetos e ideias que tive e que não foram ou não estão indo para frente e pensei em motivos teriam levado a isso e cheguei à conclusão que sou eu. Na verdade, mais especificamente a minha inércia, a preguiça e o dom (ou maldição) da enrolação e a falta de habilidades sociais. Sabe aqueles amigos em administração que você poderia ter feito e que hoje poderiam ser sócios em empreendimentos ou abrir oportunidades para você? Você não fez. Sabe aquele projeto acadêmico sobre gênero no design que você achou bem interessante, mas não se engajou por não se achar capaz? Sabe aquele coletivo de design que você queria criar, mas não levou pra frente? Sabe aquela vaga que você não mandou currículo por não se achar qualificado o bastante? Sabe aquela atividade extra que você não entrou por vergonha? Sabe aquele curso de fotografia nunca feito? Sabe a newsletter com temática lgbt+ que você nunca publicou? Poderia ser a guinada de vida que você precisava. O livro que você queria escrever e não o fez? Poderia ter sido um best-seller. Aquele curta de animação que você ia fazer? Poderia ter ganho vários prêmios. Ufa.

Poderia nada ter dado certo também (nada é certo), mas pelo menos você teria tentado e alguma coisa poderia ter surgido com isso. Uma coisa que acredito é que, mesmo que nada tivesse dado certo eu estaria em uma posição mais interessante do que eu me encontro hoje. Eu poderia estar melhor financeiramente que hoje. Eu poderia ter desenvolvido habilidades sociais que continuo a não ter hoje por não me permitir viver experiências novas e, com certeza, enriquecedoras. Fracassos são mais, ou tão, construtivos que vitórias. É o que você faz com os fatos que importa. Portanto, a partir de hoje, se permita. Se permita ser você mesmo, se permita experiências múltiplas (até aquelas que você tem certeza que não vão dar certo). Porque um dia você pode olhar para trás e desejar ter feito todas aquelas coisas e não poder mais fazer porque eram oportunidades naquele momento da sua vida e não mais nesse.

Permita-se ser feliz. Porque naquele ônibus eu entendi que eu precisava que o título desse texto fosse forte e talvez um tanto radical para dar aquele choque em mim mesmo. Sim, eu sou o meu próprio fracasso, mas eu sou e tenho todas as capacidades para ser também o meu próprio sucesso. Então se permita e ande de ônibus.







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